segunda-feira, agosto 21, 2006

Gaiolas

Vittorio tinha vindo para Portugal na década de 50, no âmbito de um projecto de intercâmbio numa Universidade de Lisboa. Foi lá que conheceu Maria Aurora, e deixou-se cativar imediatamente pelo seu sorriso e pela sua simpatia.

Começaram a passar muito tempo juntos; inicialmente, a pretexto do projecto, mas ambos se aperceberam rapidamente que se sentiam muito bem na companhia um do outro. Como queriam estar juntos fora da Universidade, Vittorio começou a frequentar a casa de Maria Aurora.

A sua mãe, D. Genoveva de Lourenço Andrade, era uma senhora com a respeitável idade de 59 anos. De linhagem nobre, tinha tido uma carreira diplomática de sucesso, interrompida aos 35 anos, com o nascimento da sua única filha, e tinha sido instrumental na decisão desta em construir a sua própria carreira. Na altura em que Maria Aurora conheceu Vittorio, D. Genoveva tinha crises de ligeira depressão, pois achava-se velha.

Quanto a seu pai, José de Lourenço Andrade, era arquitecto, e igualmente uma raridade para a época. Havia adoptado o apelido de sua esposa, numa altura em que homem nenhum o fazia. José sabia o quanto significava para D. Genoveva o apelido de sua família, e fê-la imensamente feliz com este gesto, que hoje em dia parece tão insignificante.

Os pais de Maria Aurora simpatizaram com Vittorio, se bem que D. Genoveva resistiu inicialmente, pois apercebeu-se de imediato que estava perante o homem que lhe iria roubar a sua filha. Mas, com o passar do tempo, e após muitas conversas com o marido, acabou por se resignar; afinal, o que importava era que Maria Aurora estivesse feliz.

E estava. Não havia a mínima dúvida. Casaram-se 2 meses antes de o projecto terminar, e Vittorio arranjou um emprego na Universidade, onde Maria Aurora também trabalhava. Três anos depois nasceu o primeiro - e único - filho, Luís António de Lourenço Andrade.

A vida decorria sem problemas de maior para os Lourenço Andrade (Vittorio também adoptou o nome de família de sua esposa, facto que lhe granjeou imensa consideração junto de D. Genoveva).

Maria Aurora e Vittorio tinham planos de viajar e conhecer o Mundo, mas havia sempre qualquer coisa que os retinha e os obrigava a adiar esses planos. Só em 1973 conseguem, por fim, levar a cabo a sua primeira viagem - ao Brasil, que sempre havia encantado Maria Aurora.

No ano seguinte, deu-se a Revolução, e a situação complicou-se. Maria Aurora e Vittorio, que a princípio viram com aprovação o desenrolar dos acontecimentos, acabaram por abandonar a Universidade, por não quererem pactuar com injustiças feitas em nome de nobres ideais. Valeu à família que José tenha, na empresa onde trabalhava, conseguido servir de mediador entre a Administração e a Comissão de Trabalhadores, tendo, assim, evitado o colapso.

Foram anos difíceis, e só em 79 a situação familiar voltou a normalizar. Porém, não tiveram muito tempo para aproveitar essa estabilidade reencontrada - no ano seguinte, José e D. Genoveva perderam a vida num acidente de automóvel na Marginal.

Maria Aurora atravessou um momento de severa depressão. Entre os anos de 80-82, Vittorio demonstrou o quanto gostava dela; manteve-se do seu lado em todos os momentos maus, e chegou a fazer o impensável - ele, que era um fanático por futebol, perdeu a final do Campeonato do Mundo de 82, em Espanha, que foi conquistado pela sua Squadra Azzurra. José costumava dizer, em tom de piada, que nem a morte impediria o seu genro de ver um jogo da selecção italiana, o que vem dar uma certa razão a quem diz que o amor é mais forte que a morte.

Mas o tempo tudo cura, e Maria Aurora recuperou. Em grande parte, através da dedicação a Luís, que estava a cursar Engenharia Civil, como o avô. Terminou a licenciatura em 86, com 26 anos, e, graças aos contactos adquiridos na Faculdade, rapidamente arranjou emprego. A entrada de Portugal para a CEE deixava antever um período de grande investimento e expansão, e as obras públicas seriam um sector privilegiado.

Dois anos depois, em 88, Luís comprou casa própria e saiu de casa dos pais. Nessa altura, já Maria Aurora se encontrava completamente recuperada da morte de seus pais, e aceitou bem a decisão de seu filho.

Mas, mais uma vez, a sorte foi madrasta. Menos de um ano após se ter mudado, Luís morre. Num acidente de viação. Na Marginal.

Desta vez, Maria Aurora não recuperou. Uma semana depois da morte de seu filho, quando Vittorio decidiu, finalmente, interná-la, aproveitou uma desatenção deste para se lançar do 7º andar em que viviam.

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Todos os vizinhos concordavam que era um velhote simpático, mas de poucas falas. Incomodava-os aquilo dos pombos, mas como nunca tinha tido consequências de maior, ninguém dizia nada. Se bem que agora, com esta história da gripe das aves, ia ser necessário tomar uma atitude.

Tinha uma profunda aversão a automóveis, e andava sempre a pé. Só chamava um táxi quando tinha que percorrer uma distância superior ao que a sua idade permitia, e entrava na viatura com uma solenidade inexplicável, como se estivesse a entrar num carro funerário.

Até há 5 anos atrás, costumava sair sempre de manhã, para ir tomar o seu café ao Estrela da Manhã. Mas quando o velho Estrela abriu com nova gerência e um aspecto mais moderno, deixou de lá ir.

Passava o tempo todo em casa, à excepção de um passeio matinal, com uma passagem obrigatória pelo quiosque da esquina. Era a porteira do prédio que lhe fazia todos os recados, inclusivé as compras para a casa. Havia uma senhora, amiga da porteira, que lhe fazia a lida da casa uma vez por semana.

-- ** --

Lá estava ele, sentado na sua cadeira. O quarto dava para as traseiras. A janela estava aberta, como era habitual quando fazia bom tempo. Estava um pombo no parapeito, que saltou para o chão do quarto. Já lá estavam mais dois pombos, e o chão estava cheio de milho e sementes.

Vittorio passava assim os seus dias, com os seus amigos pombos, que o visitavam sempre que ele abria a janela. Contava-lhes histórias - da sua vida, dos poucos locais que visitou, e dos muitos que sempre quis visitar, mas que conhecia apenas dos documentários da televisão e de uma revistas de viagens que comprava no quiosque da esquina, todos os meses.

Às vezes, parecia que o escutavam, mas na maior parte do tempo ignoravam-no, enquanto comiam. Todos, excepto um. Era facilmente reconhecível por ter apenas uma pata, e por lhe faltar um pouco do bico, no lado superior direito. A vida não era fácil, nem mesmo para os pombos.

Era o único pombo que se aproximava de Vittorio, aparentemente sem receio. Era, igualmente, o único que ficava quieto quando Vittorio se mexia. Por fim, era o único que ficava em casa quando Vittorio fechava a janela. Não saia daquele quarto. Vittorio não tinha vontade de andar a limpar dejectos de pombo pela casa.

Era para ele, e para os outros pombos, que Vittorio falava. Passava tarde inteiras sentado, a falar - de sua vida, dos seus sonhos, dos momentos bons, e dos momentos maus. E Vittorio sentia-se grato aos pombos, pois foi graças a longos meses desses monólogos que conseguira vencer a amargura que o havia tomado, e aceitar a vida que o Destino lhe reservou - com toda a trágica desgraça, e com toda a imensa felicidade. O importante é que nunca poderia deixar que a memória de uma eclipsasse a outra.

E agora, o Destino parecia querer pô-lo novamente à prova. Vittorio estava muito angustiado com todas as notícias que lia sobre a gripe das aves. Não exactamente pelo perigo que isso poderia representar para si próprio - tinha 71 anos, e já tinha vivido o que tinha que viver; não procurava a morte, mas também não se deixava atormentar por ela.

Tinha pena porque os seus amigos iriam, quase certamente, morrer. Mas, antes disso, os seus vizinhos dir-lhe-iam que ele teria que acabar com os pombos em casa, por causa do risco de contágio.

Vittorio olhou para o seu amigo. Estava "sentado" junto do seu pé, como habitualmente. Ali estava seguro. Nenhum outro pombo se atreveria a aproximar-se para desafiá-lo. Não que houvesse grandes motivos para isso. Havia sempre comida que chegasse para todos, e nunca tinha havido disputas sexuais no quarto. Parecia que os próprios pombos o consideravam território neutro.

Vittorio olhou para o seu amigo, e sentiu saudade. Muitas vezes resumia a sua vida a esta palavra. E agora, em breve, iria passar novamente por uma experiência de perda, os seus amigos nunca mais veriam a janela aberta. Pelo menos, a sala estava vazia. Bastaria retirar o oleado do chão, o papel da parede, e fechar tudo. Veio-lhe à memória a experiência de esvaziar a casa de seu filho, e sentiu a dor, a mesma imensa dor que havia sentido nesses dias, e que resistira, incólume, à passagem do tempo.

Vittorio levantou-se. O seu amigo acompanhou-o. Os outros pombos fugiram de imediato. Estava a escurecer.

As traseiras do seu prédio davam para as traseiras de uma imponente torre de escritórios, com doze pisos. A sua construção tinha sido um escândalo, uma vez que todos os outros edíficios da zona eram relativamente antigos, e tinham, no máximo, cinco andares.

Vittorio costumava observar esse edifício, quando escurecia. Durante o dia não se via nada, por causa dos vidros espelhados, mas à noite conseguia ver-se lá para dentro. De Inverno era ainda melhor, pois anoitecia mais cedo.

Vittorio observava a actividade daquele edifício todos os dias. Mesmo àquela hora do dia, conseguia ver dezenas de pessoas, atarefadíssimas como formigas. E que iriam permanecer ali por mais algumas horas.

E perguntava-se com frequência - aquela gente não tinha família? Não tinha ninguém à sua espera em casa? Nem sequer uns pombos, Meu Deus?

8 Comments:

Blogger Alberto Oliveira said...

Uma rotina da modernidade questionada por um italiano de provecta idade e longe da bota desde jovem. A simbologia dos pombos é tramada.
Esses gajos já me lixaram duas peças de roupa.

22/8/06 08:36  
Blogger Selene said...

Infelizmente a nossa sociedade urbana não favorece a família...eu sinto isso e conheço várias pessoas que também o sentem. Não é só pelo trabalho, é também a correria associada, as pressões para tudo e mais alguma coisa, o dinheiro...por acaso hoje falavamos ao almoço do preço dos infantários...a conclusão foi: se uma pessoa pensar muito, a família fica bem pequenininha ou não cresce...vejo um futuro com muitas famílias de duas pessoas.

Para além disto, gostei muito da tua história! :)

22/8/06 22:54  
Blogger Llyrnion said...

Hallo, Legivel.

Experimenta abrir uma janela :)


Hallo, Selene.

Bigado :)

Sim, é verdade. Casais q n possam contar com a ajuda dos pais pa tomar conta das crianças, n vão ter uma vida fácil.

Aliás, um dos motivos pelos quais a nossa sociedade n favorece a família é justamente o desmembramento da unidade familiar - as famílias afastam-se, as pessoas vão viver pa longe umas das outras, e isso tem consequências.

24/8/06 08:30  
Blogger Selene said...

E todos trabalham até muito tarde, o que não dá qualquer hipótese dos avós darem uma mãozinha, como acontecia antigamente. Por exemplo os meus pais só vão deixar de trabalhar daqui a uns 10-12 anos...nessa altura eu terei 43-45...

24/8/06 22:54  
Blogger inBluesY said...

este é uma reentre de arromba meu caro! parabéns sinceros, mas permita-me nem sempre "o que vem dar uma certa razão a quem diz que o amor é mais forte que a morte." infelizmente...


e retirando certa anarquia a trabalhar, o aproveitamento do patrão, o abuso do estado desprotegendo o valor família, também não é menos verdade que muitos optão por ficar até mais tarde simplesmente pq n tem como regressar mais cedo por opcção própria ou imposta.

mas o retracto é lindo, muito.

1 bj*

25/8/06 21:51  
Blogger segurademim said...

muito sensível, real, enternecedora, "a gaiola" familiar

não menos reais, mas frias e cruéis "as gaiolas" que alguns criam, desenvolvem, alimentam

não é a velhice que é terrível, mas o isolamento; a incapacidade de avaliar e criar estratégias para enfrentar os vários ciclos de vida, inevitáveis, duros - aquela gente não tinha família? Não tinha ninguém à sua espera em casa? Nem sequer uns pombos, Meu Deus?
e ele? e ele? velho tonto, não tinha um centro dia, uma colectividade, um baile? uma excursão?

26/8/06 19:20  
Blogger Llyrnion said...

Hallo, Blue.

Bigado :)

E sim, é verdade q ainda há mt gente q escolhe o "Long Way Home".

:*

28/8/06 22:33  
Blogger Llyrnion said...

Hallo, Segura.

Bigado :)

Ele...? Ele conseguiu ter pombos. Foram uma bengala que lhe permitiu dar os seus passos, hesitantes e incertos... talvez agora consiga dar novos passos, quem sabe?

E tens razão - mts vezes, n sabemos cm lidar com os destinos q o Destino nos coloca pela frente, e perdemo-nos pelo caminho.

:*

28/8/06 22:37  

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