quarta-feira, agosto 30, 2006

Lições

Juliana conhecia bem os contos de fadas. Tinha crescido com eles. Tinha aprendido que, algures lá fora nesse admirável mundo mais ou menos novo, estava um príncipe - o seu príncipe - disposto a tudo para que ela vivesse feliz para sempre. Ela era uma princesa, numa torre altíssima, inantigível, e o seu príncipe teria que se esforçar e passar por imensos perigos imensos para chegar até si.

Tal como todas as crianças, Juliana cresceu. E a vida levou-lhe muito daquilo que ela tinha aceite como verdade nos primeiros anos da sua vida - afinal, nem todos os polícias eram bons; afinal, nem sempre era feio mentir; afinal, nem sempre os maus são castigados. Uma a uma, a maioria das muralhas protectoras que seus pais ajudaram a erguer, para que ela se pudesse desenvolver de forma estável, foram ruindo. Não tenham pena dela, porque crescer é isso mesmo - é um tomar contacto com a realidade, de preferência de forma progressiva, e sem experiências traumatizantes.

É claro que há coisas que é suposto não esquecermos - o cheiro da terra molhada após a chuva; a sensação do vento na praia, num dia de calor; o primeiro beijo.

E, no caso de Juliana, os contos de fadas da infância. Sim, estes haviam sofrido uma ligeira metamorfose. A jovem explorada pela madrasta e pelas irmãs dava lugar à empregada de hotel que casava com o político, ou à prostituta que casava com o cliente rico, ou a qualquer outra história que mais não era que uma variação sobre o conto original. E, é claro, como pano de fundo lá estava sempre o amor eterno, o "viveram felizes para sempre".

Isto não quer dizer que Juliana fosse uma cabeça-no-ar. Era uma mulher prática. Tinha os pés bem assentes na terra, e não era muito dada a devaneios. Era desconfiada, mas não excessivamente, ou seja, não de tal forma que afastasse as pessoas à sua volta. Aliás, até era procurada pelas suas amigas, quando estas tinham algum dilema aparentemente insolúvel.

Mas nunca tinha deixado de acreditar que o seu príncipe andava aí, nesse mundo imenso, e que um dia se encontrariam. E, como quem espera, sempre alcança, assim foi. Era belo, como é normal num príncipe, de porte atlético, bem constituído, olhos e cabelos claros. De boa índole e de bom trato, bem formado, generoso. Conseguiam entender-se na perfeição em todos os aspectos, e nunca estivera tão feliz na sua vida. Sentia-se verdadeiramente abençoada.

Mas...

...pouco a pouco, a dúvida começou a insinuar-se na sua mente - ninguém era assim tão perfeito. Todas as pessoas tinham defeitos, e o seu príncipe não podia ser excepção. Juliana passou a observá-lo atentamente, para descobrir quais seriam os seus defeitos. Passou a procurar falhas em toda e qualquer atitude que ele tomasse, de forma quase obsessiva. E quem procura sempre encontra. Principalmente no que respeita a atitudes e motivações; porque estas são, em grande parte, intuídas pelo destinatário daquelas - se esse destinatário estiver a prestar atenção a um determinado aspecto em exclusão de todos os outros, não há qualquer dúvida que, mais tarde ou mais cedo, há-de começar a ver os indícios que deseja ver. Juliana aprendeu que as aparências enganam.

...pouco a pouco, a rotina começou a instalar-se na vida do casal. E o seu príncipe passou a ser cada vez menos principesco. No início, Juliana tinha sempre uma surpresa ao acordar - o pequeno-almoço na cama, uma massagem relaxantemente sensual, um príncipe entusiasmado a levá-la ao cume da paixão. No entanto, com o passar do tempo, Juliana passou a ter apenas um sorriso, depois uns grunhidos, e por fim um ressonar. Com o passar do tempo, foram-se acomodando e de tal forma se habituaram à presença um do outro que, com o passar do tempo, deixaram de reparar nela. Juliana aprendeu que muito se perde com o passar do tempo.

...pouco a pouco, a dúvida começou a insinuar-se na sua mente. Ele era perfeito, mas ela não. Juliana começou a achar que não o merecia. E começou a chegar à conclusão que ele sabia disso, e que tinha, para com ela, um comportamento condescendente. De repente, Juliana passou a ver todas as atitudes do seu príncipe sob uma nova luz. Na realidade, ele comportava-se sempre de forma impecável, mas era para se demarcar dela, para deixar bem claro ao mundo que, apesar de ela estar muito abaixo dele e da sua perfeição, ele não se importava de partilhar a sua vida com ela, aquela criatura tão desajeitada, trapalhona até. Certamente, fazia-o por uma questão de caridade, para que ela pudesse ver o que era ter do seu lado alguém tão perfeito como ele. Mas ela tinha a certeza que um dia ele partiria; e esta certeza começou a consumi-la, até não restar nada. Juliana aprendeu que certas profecias têm uma tendência para se cumprirem a si próprias.

...pouco a pouco, a insatisfação começou a instalar-se na vida do casal. Juliana começou a aperceber-se que a rotina estava a ameaçar dominar a relação. E reagiu! Tornou-se cada vez mais exigente. Todos os dias o seu príncipe tinha que inventar algo novo, algo para tornar o dia diferente, mas maravilhoso. E o príncipe começou a acusar a pressão. E tornou-se irritadiço. E argumentativo. E, por fim, violento. E a rotina, após dar uma grande volta, lá acabou por se instalar - não havia dia em que não houvesse uma enorme discussão entre os dois. Juliana aprendeu que a rotina, mais que inevitável, é necessária; quem tenta evitá-la, acaba por arrepender-se.

...pouco a pouco, a dúvida começou a insinuar-se na sua mente. O seu princípe começou a ter muito trabalho, e a ficar no escritório até tarde. De início, era só uma vez por outra; mas com o passar do tempo, passou a tornar-se mais frequente. Depois começaram os fins de semana com os clientes do Norte. "Uma seca descomunal" garantia-lhe ele, enquanto metia na mala a roupa desportiva, e o fato de banho e a toalha, e outros utensílios próprios de quem vai apanhar uma grande seca. Ela chegou a confrontá-lo, acusando-o de a trair; mas ele negou sempre veementemente tal hipótese. Porém, era um facto que no período imediatamente a seguir a essas discussões, o trabalho abrandava e os clientes insistiam menos nos fins de semana. Até que um dia ela decidiu contratar um detective. Quando recebeu as fotos, Juliana colocou-o fora de casa. Juliana aprendeu que um príncipe é um bem para o qual existe uma grande procura.

...pouco a pouco, a dúvida começou a insinuar-se na sua mente. O seu princípe começou a ter muito trabalho, e a ficar no escritório até tarde. De início, era só uma vez por outra; mas com o passar do tempo, passou a tornar-se mais frequente. Depois começaram os fins de semana com os clientes do Norte. "Uma seca descomunal" garantia-lhe ele, enquanto lhe dava um beijo de despedida. E ela passava cada vez mais tempo sozinha. E uma mulher não é de ferro. E um dia aconteceu o inevitável - envolveu-se com outro homem. Que lhe disse que ela devia era terminar essa relação que não a estava a satisfazer. E ela assim fez! Meteu-se no carro, e foi direita ao Porto, disposta a surpreender o seu princípe com uma amante... ou duas! Foi direita à empresa dos tais clientes, onde o segurança lhe informou que tinham ido jantar, e lhe deu a morada do clube onde se encontravam. Ah, jantar, pois sim! Era um clube de strip! Determinada, Juliana entrou, e perguntou pelo nome do cliente. Foi conduzida à mesa, onde eles estavam, de facto, a jantar. Mas do seu príncipe, nem sinal. O cliente disse-lhe que ele tinha regressado ao hotel, que nunca os acompanhava nestas noitadas. Que nunca tinha visto um homem assim tão certinho. Juliana aprendeu que é muito perigoso julgarmos os outros à nossa imagem.

... pouco a pouco, a rotina começou a instalar-se na vida do casal. E eles tiveram que aceitar o facto de que não iriam comportar-se como se fossem um casal de adolescentes cheios de tusa para o resto dos seus dias. E, a muito custo, foram-se acomodando um ao outro, numa adaptação constante, ora pacífica, ora em guerra aberta; ora mais juntos, ora mais afastados; ora mais bem-dispostos, ora mais carrancudos; mas sempre que se confrontavam com uma crise, tentavam responder juntos à mesma pergunta - o que era necessário fazer para ultrapassar a situação que tinham à sua frente? E, invariavelmente, chegavam à conclusão que era necessário discutir o assunto, ouvir os motivos de cada um, o que os tinha levado até ali, ao ponto em que se encontravam. Certo dia, combinaram que em cada discussão, um deles teria o direito de escolher um pormenor sobre a forma como esta seria feita. A princípio, a coisa não surtiu grande efeito. Mas depois, começaram a libertar-se, a perder o receio e a entregarem-se um ao outro, até nesses momentos. A primeira discussão memorável foi à chuva, na rua. A segunda foi na praia, dentro de água... de Inverno. Seguiram-se muitas outras - a ver um determinado filme (em casa, e não no cinema, claro); a ouvir um determinado álbum; a preparar uma refeição; a fazer jogging; completamente nús, e cada argumento da discussão acompanhado de uma carícia; imóveis, de frente um para o outro; imóveis, de costas um para o outro; na mais completa escuridão; enfim, a regra era que não haviam regras. E que, se um assunto era suficiente sério para ser merecedor de uma discussão, então tinham que terminar separados ou com o assunto resolvido e para trás das costas. Juliana aprendeu que o melhor da relação era que ambos sabiam tudo um sobre o outro, e ambos tinham muito para aprender um sobre o outro.

Cabe a cada um de nós escolher o que deseja aprender.

2 Comments:

Blogger inBluesY said...

dosear.

31/8/06 22:33  
Blogger Selene said...

Não é fácil ter uma relação, nem é fácil atravessar todos esses momentos (muitos deles acontecem em muitas relações, são o percurso da relação). Mas no fundo tem que se construir a relação com todos os senãos e tentar ultrapassar os obstáculos (quando se quer mesmo). E aprender faz parte do percurso.

Revi-me um pouco na alusão ao príncipe, não do príncipe como "pessoa perfeita", mas no príncipe que é a pessoa que "te pode completar"...coisas das histórias de criança, mas que ainda hoje me fazem sonhar...:)

4/9/06 01:33  

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