Cinco Minutos
- Espera só um bocadinho. Só cinco minutos.
Bernardo voltou a entrar em casa. Já estavam atrasados para a festa de aniversário da tia Mariana, mas não podiam ir sem levar o presente. Ele podia jurar que o tinha deixado na mala do carro. Não era um embrulho muito grande (era um livro de receitas), mas também não era discreto - o papel de embrulho era de um rosa forte, com símbolos abstractos a preto. Saltava à vista. O que ninguém diria, a julgar pelo facto de Bernardo não o conseguir encontrar em lugar algum.
Bem, de qualquer forma, Mariana teria tempo mais que suficiente para colocar a cadeira da bebé à sua maneira, e de a prender com mais segurança do que seria dispensada a um terrorista condenado. Essa tarefa costumava ocupar-lhe uns largos minutos, até estar tudo verificado e re-verificado; e, às vezes, re-re-verificado. Parecia uma obsessão!
Estava no primeiro piso da casa quando ouviu o guinchar de pneus, e o ruído de um carro a alta velocidade. Dirigiu-se à janela, e viu o que lhe pareceu ser um Fiat a passar como uma flecha, mesmo a rasar o seu Vectra. Mariana tinha corrido de imediato para retirar a bebé da cadeira, mas parou ao ver, aliviada, que não havia perigo.
Esse estado de alívio existiu por apenas alguns segundos. Foi brutalmente esmagado, juntamente com Mariana e a bebé, pela camioneta de caixa fechada que deu a curva a uma velocidade que tornava impossível qualquer tipo de controle do veículo. Bernardo assistiu ao virar da camioneta, que tombou violentamente em cima de seu carro e de Mariana, que tentava retirar a bebé da cadeira, embatendo contra a parede de sua casa.
Nessa fugaz eternidade de horror, Bernardo teve tempo de pensar que deveria tê-la impedido de criar a mania de quase prender a bebé como se fosse uma Houdini em miniatura; teve tempo de pensar que o logotipo na camioneta lhe parecia familiar; mas, acima de tudo, ouvia a frase a ecoar-lhe na mente - "Só cinco minutos". Era uma sensação estranha, indescritível, mas pesada como uma montanha. A cicatriz na sua face esquerda, em forma de meia lua, que pontuava sempre as suas expressões faciais, pontuava agora, também, a apatia que lhe dominava o rosto. Os seus olhos castanhos estavam mortos, sem o seu brilho habitual.
--- “ ---
"Só mais cinco minutos" pedira Natália "Fica mais um bocadinho, só para ficarmos assim, abraçados um ao outro". E Lourenço anuíra. Um pouco mais tarde, estava ele na sala a calçar o sapato, a última peça que faltava para que a sua presença naquela casa estivesse acima de qualquer suspeita óbvia, quando se ouve a chave na porta, e entra... Abel, o marido de Natália!
Era uma situação estranha, mas não necessariamente comprometedora. Um pé descalço não prova nada, e bastava um pouco de presença de espírito para apresentar uma justificação convincente. Infelizmente, nenhum dos dois conseguiu chamar a si essa presença de espírito, e bastou a Abel ver o olhar que Natália lhe lançou para se aperceber do que se estava a passar, e atirar-se com um grito selvagem sobre Lourenço.
Este conseguiu evitá-lo, e desatou a fugir, com um pé descalço, colocando a mesa da sala entre ele e o seu agressor. Procurava algo para lhe atirar à cabeça, mas a única coisa que lhe apareceu foi um embrulho rosa e preto, que estava em cima de uma das cadeiras. Lourenço lançou-o, e conseguiu distrair Abel o suficiente para lhe permitir sair porta fora.
Conseguiu mantê-lo à distância nas escadas, mas perdeu algum terreno a abrir a porta do prédio. Não teria conseguido abrir a porta do carro, não fora a infelicidade de Abel, que embateu num homem que praticava jogging por ali.
Lourenço arrancou a toda a velocidade, mas não teve tempo de cantar vitória, pois Abel vinha já no seu encalço, numa camioneta de caixa fechada. Lourenço reconheceu o logotipo - devia ser a carrinha onde Abel andava a fazer as entregas.
A perseguição já durava há uns bons 15 minutos, e Abel demonstrava uma perícia invejável a conduzir aquela carripana. Lourenço tinha que fazer algo, tinha que afastar das suas costas aquele homem possuído pelo Demónio, antes que lhe acontecesse alguma desgraça.
Assim, decidiu guinar subitamente para a direita, entrando noutra rua, onde passou a rasar um carro que estava parado na faixa contrária.
--- “ ---
"É só cinco minutos" pensou Abel, parando a camioneta em frente ao seu prédio.
É verdade que ainda havia muitas entregas para fazer, mas como ele já havia saído tarde, tinha apanhado imenso trânsito. Os seus colegas haviam ficado com algumas das suas entregas, mas, mesmo assim, ele não iria ganhar muito tempo.
Portanto, decidira parar e fazer a surpresa a Natália naquele momento - em vez de esperar pelo fim do dia, entregar-lhe-ia já o presente.
Tinha sido muito simpático dos seus colegas, terem comprado um presente para o seu aniversário de casamento; eles sabiam que ele fazia tudo pela sua Natália. Mais... tinha sido ideia do chefe. Abel abraçara-o, emocionado. O Chefe Jaime sempre tinha sido seu amigo, apesar de ter aquela ideia fixa de que a Natália devia arranjar um emprego.
Abel subiu as escadas, e meteu a chave à porta.
--- “ ---
- Vá lá, Abel, só mais cinco minutos.
Abel estava impaciente. Era o seu aniversário de casamento, e queria despachar as entregas da tarde para ir ter com Natália mais cedo. Abel adorava a mulher. De tal forma que até fazia um horário de trabalho muito mais exigente, só para ela não ter de trabalhar.
Jaime, o seu chefe, estava a tentar aguentá-lo. O pessoal do Despacho tinha-se juntado e tinham comprado um presente para o Abel oferecer à sua esposa. Mas o raio do presente estava atrasado!
- Epa, ó chefe, eu tenho mesmo que me pôr a andar - Abel estava verdadeiramente em pulgas, ao ver o tempo passar.
- Oh, raio do homem. Espera aí, pá, só mais cinco minutos!
Jaime sabia que a decisão de Abel tinha sido um erro. Por um lado, Natália passava dias inteiros em casa sem fazer quase nada, uma vez que Abel pagava a uma empregada para ir lá duas vezes por semana. Por outro lado, Abel ganhava pouco; para poder suportar tudo isto, fazia imensas horas extraordinárias, trabalhava muitas vezes ao fim de semana, e ainda fazia uns biscates como bate-chapas.
Natália sentia-se imensamente só. Jaime sabia-o, pois havia tido um caso com ela. Antes de conhecer melhor a realidade em que ela vivia, antes de conhecer melhor este tipo intrigante, mas decente, que era Abel. Depois, parou os encontros com ela. Não se sentia capaz de se aproveitar da situação infeliz em que a vida havia colocado aquele casal.
Ele sabia que ela arranjaria outro homem para a ajudar a combater a solidão. Ela gostava de Abel, e não era capaz de o deixar, mas dizia não conseguir aguentar aqueles dias que passava sozinha. Às vezes, passavam dias em que quase nem via o seu marido, que chegava muito tarde a casa, e saía muito cedo.
Por seu turno, Jaime havia tentado convencer Abel que a sua mulher deveria arranjar um emprego, falando-lhe das vantagens - ele poderia passar a fazer horários normais, e o casal poderia passar mais tempo junto. Mas nada o demovia da sua decisão - a sua Natália a trabalhar, nem pensar!
E assim, ela ia tendo um caso atrás de outro. Às vezes, parecia que era para o castigar. Era como se ela soubesse que ele era o homem da sua vida, que era com ele que ela queria passar o seu tempo, mas ele, ironicamente, por tanto gostar dela, quase não tinha tempo para passarem juntos. Era realmente triste.
- Aqui está! - ouviu-se uma voz, lá fora. Tinha chegado, finalmente.
- Chamem o pessoal - gritou Jaime, com um sorriso.
Foi emocionante. O Abel até chegou a derramar uma lágrima, o que, tendo em conta o ambiente de "macho" do Despacho, não deixou de ser surpreendente.
- Vá, cada uma das outras carrinhas hoje vai fazer mais uma entrega, para tu teres menos para fazer - disse Jaime - Assim que acabares o serviço, podes ir para a casa. Já assinei a autorização para ficares hoje com a carrinha.
Abel abraçou o chefe, agradeceu-lhe, e arrancou, entusiasmado. Não foi a primeira vez que Jaime se sentiu um canalha pelo caso que teve com a mulher dele, e não seria certamente a última.
--- “ ---
- Então?! Falta muito? Já estamos atrasados!
- Está quase, chefe!
Ele queria despachar aquilo o mais rapidamente possível. Queria sair mais cedo, pois tinha uma festa de aniversário nessa noite. Só faltava o presente do marido da Natália.
Ah, a Natália! Grande mulher! O caso que mantinham era um risco para ambos, visto serem casados. Felizmente, o marido dela quase nunca estava em casa, e a sua esposa nunca havia desconfiado de nada.
Ele nunca tinha percebido muito bem como era a relação entre eles. Só sabia que Natália passava muito tempo sozinha, porque o marido não queria que ela trabalhasse. E ela não conseguia lidar com a solidão. Porque motivo é que procurava amantes, em vez de, por exemplo, comprar um cão, foi coisa que nunca percebeu, mas também não se queixava.
- Então, pá? O que é que estão a fazer?
- Oh, chefe, só mais cinco minutos! Nós éramos para ter feito isto logo de manhã, mas o chefe disse que tínhamos que fazer primeiro o serviço para o cliente da Póvoa, lembra-se? Por isso é que este atrasou.
Sim, era verdade. Enfim, também não seria por sair um pouco mais tarde que viria grande mal ao mundo.
Finalmente, a carrinha das entregas lá arrancou. Ele ligou para o Jaime, o chefe do marido da Natália, a dizer-lhe que o presente ia a caminho. De seguida, arrumou as coisas, e preparou-se para seguir para casa. Hoje ia tirar a tarde.
Ah, a Natália! Para a semana, havia de lhe telefonar, para ver quando podia lá ir. Já não a via há umas boas semanas. O seu rosto iluminou-se com um sorriso, reflectido no brilho dos seus olhos castanhos. A cicatriz na sua face esquerda, em forma de meia lua, pontuava o seu sorriso, enquanto arrancou, mergulhando o Vectra no trânsito.
Bernardo voltou a entrar em casa. Já estavam atrasados para a festa de aniversário da tia Mariana, mas não podiam ir sem levar o presente. Ele podia jurar que o tinha deixado na mala do carro. Não era um embrulho muito grande (era um livro de receitas), mas também não era discreto - o papel de embrulho era de um rosa forte, com símbolos abstractos a preto. Saltava à vista. O que ninguém diria, a julgar pelo facto de Bernardo não o conseguir encontrar em lugar algum.
Bem, de qualquer forma, Mariana teria tempo mais que suficiente para colocar a cadeira da bebé à sua maneira, e de a prender com mais segurança do que seria dispensada a um terrorista condenado. Essa tarefa costumava ocupar-lhe uns largos minutos, até estar tudo verificado e re-verificado; e, às vezes, re-re-verificado. Parecia uma obsessão!
Estava no primeiro piso da casa quando ouviu o guinchar de pneus, e o ruído de um carro a alta velocidade. Dirigiu-se à janela, e viu o que lhe pareceu ser um Fiat a passar como uma flecha, mesmo a rasar o seu Vectra. Mariana tinha corrido de imediato para retirar a bebé da cadeira, mas parou ao ver, aliviada, que não havia perigo.
Esse estado de alívio existiu por apenas alguns segundos. Foi brutalmente esmagado, juntamente com Mariana e a bebé, pela camioneta de caixa fechada que deu a curva a uma velocidade que tornava impossível qualquer tipo de controle do veículo. Bernardo assistiu ao virar da camioneta, que tombou violentamente em cima de seu carro e de Mariana, que tentava retirar a bebé da cadeira, embatendo contra a parede de sua casa.
Nessa fugaz eternidade de horror, Bernardo teve tempo de pensar que deveria tê-la impedido de criar a mania de quase prender a bebé como se fosse uma Houdini em miniatura; teve tempo de pensar que o logotipo na camioneta lhe parecia familiar; mas, acima de tudo, ouvia a frase a ecoar-lhe na mente - "Só cinco minutos". Era uma sensação estranha, indescritível, mas pesada como uma montanha. A cicatriz na sua face esquerda, em forma de meia lua, que pontuava sempre as suas expressões faciais, pontuava agora, também, a apatia que lhe dominava o rosto. Os seus olhos castanhos estavam mortos, sem o seu brilho habitual.
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"Só mais cinco minutos" pedira Natália "Fica mais um bocadinho, só para ficarmos assim, abraçados um ao outro". E Lourenço anuíra. Um pouco mais tarde, estava ele na sala a calçar o sapato, a última peça que faltava para que a sua presença naquela casa estivesse acima de qualquer suspeita óbvia, quando se ouve a chave na porta, e entra... Abel, o marido de Natália!
Era uma situação estranha, mas não necessariamente comprometedora. Um pé descalço não prova nada, e bastava um pouco de presença de espírito para apresentar uma justificação convincente. Infelizmente, nenhum dos dois conseguiu chamar a si essa presença de espírito, e bastou a Abel ver o olhar que Natália lhe lançou para se aperceber do que se estava a passar, e atirar-se com um grito selvagem sobre Lourenço.
Este conseguiu evitá-lo, e desatou a fugir, com um pé descalço, colocando a mesa da sala entre ele e o seu agressor. Procurava algo para lhe atirar à cabeça, mas a única coisa que lhe apareceu foi um embrulho rosa e preto, que estava em cima de uma das cadeiras. Lourenço lançou-o, e conseguiu distrair Abel o suficiente para lhe permitir sair porta fora.
Conseguiu mantê-lo à distância nas escadas, mas perdeu algum terreno a abrir a porta do prédio. Não teria conseguido abrir a porta do carro, não fora a infelicidade de Abel, que embateu num homem que praticava jogging por ali.
Lourenço arrancou a toda a velocidade, mas não teve tempo de cantar vitória, pois Abel vinha já no seu encalço, numa camioneta de caixa fechada. Lourenço reconheceu o logotipo - devia ser a carrinha onde Abel andava a fazer as entregas.
A perseguição já durava há uns bons 15 minutos, e Abel demonstrava uma perícia invejável a conduzir aquela carripana. Lourenço tinha que fazer algo, tinha que afastar das suas costas aquele homem possuído pelo Demónio, antes que lhe acontecesse alguma desgraça.
Assim, decidiu guinar subitamente para a direita, entrando noutra rua, onde passou a rasar um carro que estava parado na faixa contrária.
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"É só cinco minutos" pensou Abel, parando a camioneta em frente ao seu prédio.
É verdade que ainda havia muitas entregas para fazer, mas como ele já havia saído tarde, tinha apanhado imenso trânsito. Os seus colegas haviam ficado com algumas das suas entregas, mas, mesmo assim, ele não iria ganhar muito tempo.
Portanto, decidira parar e fazer a surpresa a Natália naquele momento - em vez de esperar pelo fim do dia, entregar-lhe-ia já o presente.
Tinha sido muito simpático dos seus colegas, terem comprado um presente para o seu aniversário de casamento; eles sabiam que ele fazia tudo pela sua Natália. Mais... tinha sido ideia do chefe. Abel abraçara-o, emocionado. O Chefe Jaime sempre tinha sido seu amigo, apesar de ter aquela ideia fixa de que a Natália devia arranjar um emprego.
Abel subiu as escadas, e meteu a chave à porta.
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- Vá lá, Abel, só mais cinco minutos.
Abel estava impaciente. Era o seu aniversário de casamento, e queria despachar as entregas da tarde para ir ter com Natália mais cedo. Abel adorava a mulher. De tal forma que até fazia um horário de trabalho muito mais exigente, só para ela não ter de trabalhar.
Jaime, o seu chefe, estava a tentar aguentá-lo. O pessoal do Despacho tinha-se juntado e tinham comprado um presente para o Abel oferecer à sua esposa. Mas o raio do presente estava atrasado!
- Epa, ó chefe, eu tenho mesmo que me pôr a andar - Abel estava verdadeiramente em pulgas, ao ver o tempo passar.
- Oh, raio do homem. Espera aí, pá, só mais cinco minutos!
Jaime sabia que a decisão de Abel tinha sido um erro. Por um lado, Natália passava dias inteiros em casa sem fazer quase nada, uma vez que Abel pagava a uma empregada para ir lá duas vezes por semana. Por outro lado, Abel ganhava pouco; para poder suportar tudo isto, fazia imensas horas extraordinárias, trabalhava muitas vezes ao fim de semana, e ainda fazia uns biscates como bate-chapas.
Natália sentia-se imensamente só. Jaime sabia-o, pois havia tido um caso com ela. Antes de conhecer melhor a realidade em que ela vivia, antes de conhecer melhor este tipo intrigante, mas decente, que era Abel. Depois, parou os encontros com ela. Não se sentia capaz de se aproveitar da situação infeliz em que a vida havia colocado aquele casal.
Ele sabia que ela arranjaria outro homem para a ajudar a combater a solidão. Ela gostava de Abel, e não era capaz de o deixar, mas dizia não conseguir aguentar aqueles dias que passava sozinha. Às vezes, passavam dias em que quase nem via o seu marido, que chegava muito tarde a casa, e saía muito cedo.
Por seu turno, Jaime havia tentado convencer Abel que a sua mulher deveria arranjar um emprego, falando-lhe das vantagens - ele poderia passar a fazer horários normais, e o casal poderia passar mais tempo junto. Mas nada o demovia da sua decisão - a sua Natália a trabalhar, nem pensar!
E assim, ela ia tendo um caso atrás de outro. Às vezes, parecia que era para o castigar. Era como se ela soubesse que ele era o homem da sua vida, que era com ele que ela queria passar o seu tempo, mas ele, ironicamente, por tanto gostar dela, quase não tinha tempo para passarem juntos. Era realmente triste.
- Aqui está! - ouviu-se uma voz, lá fora. Tinha chegado, finalmente.
- Chamem o pessoal - gritou Jaime, com um sorriso.
Foi emocionante. O Abel até chegou a derramar uma lágrima, o que, tendo em conta o ambiente de "macho" do Despacho, não deixou de ser surpreendente.
- Vá, cada uma das outras carrinhas hoje vai fazer mais uma entrega, para tu teres menos para fazer - disse Jaime - Assim que acabares o serviço, podes ir para a casa. Já assinei a autorização para ficares hoje com a carrinha.
Abel abraçou o chefe, agradeceu-lhe, e arrancou, entusiasmado. Não foi a primeira vez que Jaime se sentiu um canalha pelo caso que teve com a mulher dele, e não seria certamente a última.
--- “ ---
- Então?! Falta muito? Já estamos atrasados!
- Está quase, chefe!
Ele queria despachar aquilo o mais rapidamente possível. Queria sair mais cedo, pois tinha uma festa de aniversário nessa noite. Só faltava o presente do marido da Natália.
Ah, a Natália! Grande mulher! O caso que mantinham era um risco para ambos, visto serem casados. Felizmente, o marido dela quase nunca estava em casa, e a sua esposa nunca havia desconfiado de nada.
Ele nunca tinha percebido muito bem como era a relação entre eles. Só sabia que Natália passava muito tempo sozinha, porque o marido não queria que ela trabalhasse. E ela não conseguia lidar com a solidão. Porque motivo é que procurava amantes, em vez de, por exemplo, comprar um cão, foi coisa que nunca percebeu, mas também não se queixava.
- Então, pá? O que é que estão a fazer?
- Oh, chefe, só mais cinco minutos! Nós éramos para ter feito isto logo de manhã, mas o chefe disse que tínhamos que fazer primeiro o serviço para o cliente da Póvoa, lembra-se? Por isso é que este atrasou.
Sim, era verdade. Enfim, também não seria por sair um pouco mais tarde que viria grande mal ao mundo.
Finalmente, a carrinha das entregas lá arrancou. Ele ligou para o Jaime, o chefe do marido da Natália, a dizer-lhe que o presente ia a caminho. De seguida, arrumou as coisas, e preparou-se para seguir para casa. Hoje ia tirar a tarde.
Ah, a Natália! Para a semana, havia de lhe telefonar, para ver quando podia lá ir. Já não a via há umas boas semanas. O seu rosto iluminou-se com um sorriso, reflectido no brilho dos seus olhos castanhos. A cicatriz na sua face esquerda, em forma de meia lua, pontuava o seu sorriso, enquanto arrancou, mergulhando o Vectra no trânsito.

4 Comments:
cinco minutos é coisa que me falta neste momento pq morro literalmente de fome ... e fiquei esmagada com a primeira história.
voltarei, como sempre, até pq hoje chove sempre convida lareiras acesas.
as voltas que o mundo dá...
Não gosto de ler de raspão. Gosto de fazê-lo pacientemente, absorvendo cada palavra, recriando a atmosfera na minha mente. Gostei, daquele modo que se gosta de histórias que ferem, que incomodam, mas que são indubitavelmente boas. Gostei muito, amigo.
Abraço apertado
Não está esquecido. Está só à espera de tempo.
Abraço.
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