Um Presente Para as Gerações Futuras
Olá, amiguinhos e amiguinhas.
Era uma vez uma princesinha muito amorosa que vivia num castelo muito grande, com os seus pais, o rei e a rainha. Toda a gente na Monarquia Constitucional era feliz, pois o rei e a rainha eram justos e bondosos.
No entanto, isto só era possível porque os súbditos reais eram cumpridores e o índice de evasão fiscal era quase inexistente. De outra forma, seria impossível financiar os programas sociais empreendidos pelo Governo. Por seu lado, os líderes gastavam o dinheiro de forma responsável. Sim, havia um excesso ou outro, mas eram a excepção, e não a regra.
A princesa teve uma infância normal, com momentos bons e momentos maus. Não só tinha muitos amigos locais, como também vinham muitos príncipes de Monarquias Constitucionais vizinhas brincar com ela e com as suas amigas, mas eram uns chatos e estavam sempre a querer brincar às guerras com a sua colecção de bonecas de "O Meu Pequeno Unicórnio", ou a tentar espreitar por debaixo das suas saias.
Ao entrar na adolescência, a princesa começou a passar mais tempo com as suas amigas, tendo cada vez menos paciência para as brincadeiras parvas dos rapazes. No entanto, esta foi uma fase muito curta, pois alguns dos rapazes acabaram por entrar rapidamente no mesmo comprimento de onda da princesa e das suas amigas, e começaram ir passar as tardes a casa uns dos outros, a ouvir música, conversar, e a fazer todas aquelas divertidas e exploratórias brincadeiras de adolescentes.
A princesa acabou por se interessar muito por um desses seus amigos, o Ismael. Não é que fosse muito bonito ou deslumbrante, mas era divertido, e, mais importante de tudo, não tinha vergonha de dançar, nem fazia uma figura excessivamente triste a tentar impressioná-la.
Começaram a namorar, tendo a rainha aproveitado o ensejo para ter uma pequena conversa com a sua filha acerca da vida, do seu corpo em mudança, das hormonas, e da importância da frase "Sem camisinha, nem pensar".
O namoro durou três anos, altura em que a princesa foi para uma faculdade numa terra distante, cientificamente mais avançada. A distância acabou por fazer com que ambos terminassem o namoro, pois quer um, quer outro, encontraram outras pessoas interessantes com quem se envolveram amorosamente.
A princesa teve vários namorados durante a sua passagem pela Universidade, tendo sido, antes de mais, um período de experiências. Algumas destas foram claramente reprovadas por seus pais, como, p. ex., quando ela partiu um braço enquanto praticava snowboard. Felizmente, os monarcas nunca souberam de uma experiência que a princesa teve com uma colega sua, numa noite em que ambas beberam uns copitos a mais... ou terão sido umas garrafitas? Anyway... apesar de a experiência não ter sido desagradável (pelo menos, daquilo que se lembrava; ambas concordaram que era melhor destruir o video que haviam feito sem sequer o ver), quer a princesa, quer a amiga, chegaram à conclusão que talvez fosse melhor não experimentarem novamente.
Já licenciada, em Organização Empresarial, a princesa regressou a casa, onde reencontrou os seus amigos. Ismael estava já casado, com uma mulher muito bonita, e tinha uma filha com um ano. A princesa sentiu um certo arrependimento de ter terminado o namoro com ele, e ainda esteve tentada a reconquistá-lo, mas, depois de lutar com a ideia por uns meses, achou melhor ficar quieta.
Dedicou-se ao trabalho. Criou uma empresa de consultoria na área em que se havia especializado. Inicialmente, utilizou os contactos dos seus pais para arranjar grandes clientes, mas depressa se fartou deles. Eles não queriam realmente controlar o caos e obter produtividade; o que lhes interessava era "parecer organizado", e não "ser organizado", até porque isso daria demasiado trabalho. A princesa acabou por vender a sua carteira de grandes clientes a uma empresa concorrente, e passou a dedicar-se apenas a um conjunto de pequenas empresas, escolhidas a dedo.
Esse foi um período rico em novos conhecimentos para a princesa, que foi tendo vários casos amorosos relativamente curtos, enquanto procurava a pessoa com quem gostaria de fazer uma vida em comum. Alguns correram muito mal, e deram à princesa lições valiosas, não só sobre as pessoas em geral, mas também sobre si em particular - sobre o que tolerava, sobre o seu feitio, sobre aquilo que procurava, e, acima de tudo, sobre as situações pelas quais não queria voltar a passar.
Outros casos houve que terminaram de forma natural, e com a compreensão de ambas as partes; alguns dos melhores amigos da princesa saíram desses relacionamentos. Outros afastaram-se e desapareceram. Outros, ainda, ficaram a pairar na sua vida, suspensos, à espreita de uma nova oportunidade.
Ao completar trinta anos, a princesa tinha uma empresa sólida, que começara a crescer lentamente graças a contactos com o exterior. Ela continuava a escolher meticulosmente os seus clientes nacionais, e muitos destes começavam a ganhar reconhecimento internacional; por arrasto, também a princesa e a sua empresa ganhavam uma maior exposição no estrangeiro.
Na sua vida pessoal, pouco havia mudado. A princesa continuava à procura do homem da sua vida, seguindo o único processo que conhecia - experimentando. No entanto, começava a ficar um pouco enfadada. Já há muito tempo que não tinha más experiências, pois havia aprendido a identificar os sinais de alarme e a agir de imediato, de forma a cortar o mal pela raíz; mas começava-a a fartar um pouco, esta rotina de procurar alguém interessante, demonstrar interesse, sondar a reacção dele, envolvê-lo e envolver-se... tudo aquilo lhe começava a parecer cansativo.
E começava a ficar também um pouco desanimada. Começou a preocupar-se mais e mais, pois achava que já estaria na altura de ter encontrado o homem que procurava. Nos últimos anos tinha-se tornado mais tensa, mais crispada, revoltada, até. Por vezes, não conseguia perceber muito bem porquê, ou com o quê, mas, eventualmente, lá saía mais uma diatribe acerca dos homens, que eram todos iguais e queriam todos a mesma coisa, e que ainda por cima não tinha jeito para essa coisa que queriam. Depois, era quase certo que haveria um pequeno período de melancolia, que às vezes se transformava numa ligeira depressão.
Era, também, sintomático desses períodos o envolver-se numa qualquer actividade para preencher o pouco tempo livre de que dispunha. Na maioria das vezes, acabava por abandonar essas actividades, se bem que algumas conseguiam prender o seu interesse o suficiente para as levar até o fim. Destas, a que se podia gabar de uma maior longevidade tinha sido aprender japonês.
Passou, então, a procurar mais a companhia das suas amigas, as que estavam na mesma situação que ela, e passaram a sair juntas, organizando as suas "Girls' Night Out", onde o objectivo era divertirem-se sem terem de se preocupar com - ou aturar os - homens. A princesa tinha um amigo que era dono de um clube gay, e iam lá muitas vezes, porque gostavam do ambiente. Só era permitida a entrada de mulheres se fossem como acompanhantes de habitués, e era garantido que, naquele clube, uma mulher estaria a salvo da "Caçada de Sábado à Noite" (ou de qualquer outra noite).
Durante uns meses, a princesa saiu exclusivamente com este grupo de amigas, evitando ao máximo o contacto com homens, mesmo com os seus amigos. Aparentemente, a princesa procurava conformar-se com o facto de o homem que procurava não existir, e, por algum motivo só dela conhecido, pensava que o conseguiria fazer com mais sucesso se reduzisse ao mínimo o contacto com homens.
Até que um dia, esse quasi-isolamento terminou, tão abruptamente como havia começado. Aparentemente, nada havia mudado na atitude da princesa, sendo que a única diferença perceptível foi uma alteração na forma como os seus casos amorosos começaram a acontecer - mais espaçados e duradouros. Um dos seus amigos disse-lhe um dia "Pareces mais leve... como se tivesse saído um peso dos ombros", ao que ela respondeu "Sim. Deixei de me consumir com preocupações. Deixei de procurar constantemente formas de escape para me anestesiar, para atenuar o mundo à minha volta. Deixei de passar a vida a pensar no que gostaria de ser e ter, para poder dar atenção ao que sou e tenho. Deixei de viver obcecada com o ter que viver muito feliz para sempre, para conseguir apreciar a felicidade que tenho no dia a dia. Deixei de exigir que os homens com quem me envolvo tenham de adivinhar o que gosto, o que preciso, o que quero, e decidi mostrar-lhes".
E assim a nossa princesa viveu a tentar ser feliz, um dia de cada vez. E será que conseguiu encontrar o seu príncipe encantado? Não sei, amiguinhos, não sei. Mas conta-se que, quando lhe perguntaram onde estaria o seu príncipe, ela respondeu, com um sorriso misto de maroto e matreiro, "Não sei. Mas tenho andado a olhar com mais atenção para os sapos e para os lobos maus".
Era uma vez uma princesinha muito amorosa que vivia num castelo muito grande, com os seus pais, o rei e a rainha. Toda a gente na Monarquia Constitucional era feliz, pois o rei e a rainha eram justos e bondosos.
No entanto, isto só era possível porque os súbditos reais eram cumpridores e o índice de evasão fiscal era quase inexistente. De outra forma, seria impossível financiar os programas sociais empreendidos pelo Governo. Por seu lado, os líderes gastavam o dinheiro de forma responsável. Sim, havia um excesso ou outro, mas eram a excepção, e não a regra.
A princesa teve uma infância normal, com momentos bons e momentos maus. Não só tinha muitos amigos locais, como também vinham muitos príncipes de Monarquias Constitucionais vizinhas brincar com ela e com as suas amigas, mas eram uns chatos e estavam sempre a querer brincar às guerras com a sua colecção de bonecas de "O Meu Pequeno Unicórnio", ou a tentar espreitar por debaixo das suas saias.
Ao entrar na adolescência, a princesa começou a passar mais tempo com as suas amigas, tendo cada vez menos paciência para as brincadeiras parvas dos rapazes. No entanto, esta foi uma fase muito curta, pois alguns dos rapazes acabaram por entrar rapidamente no mesmo comprimento de onda da princesa e das suas amigas, e começaram ir passar as tardes a casa uns dos outros, a ouvir música, conversar, e a fazer todas aquelas divertidas e exploratórias brincadeiras de adolescentes.
A princesa acabou por se interessar muito por um desses seus amigos, o Ismael. Não é que fosse muito bonito ou deslumbrante, mas era divertido, e, mais importante de tudo, não tinha vergonha de dançar, nem fazia uma figura excessivamente triste a tentar impressioná-la.
Começaram a namorar, tendo a rainha aproveitado o ensejo para ter uma pequena conversa com a sua filha acerca da vida, do seu corpo em mudança, das hormonas, e da importância da frase "Sem camisinha, nem pensar".
O namoro durou três anos, altura em que a princesa foi para uma faculdade numa terra distante, cientificamente mais avançada. A distância acabou por fazer com que ambos terminassem o namoro, pois quer um, quer outro, encontraram outras pessoas interessantes com quem se envolveram amorosamente.
A princesa teve vários namorados durante a sua passagem pela Universidade, tendo sido, antes de mais, um período de experiências. Algumas destas foram claramente reprovadas por seus pais, como, p. ex., quando ela partiu um braço enquanto praticava snowboard. Felizmente, os monarcas nunca souberam de uma experiência que a princesa teve com uma colega sua, numa noite em que ambas beberam uns copitos a mais... ou terão sido umas garrafitas? Anyway... apesar de a experiência não ter sido desagradável (pelo menos, daquilo que se lembrava; ambas concordaram que era melhor destruir o video que haviam feito sem sequer o ver), quer a princesa, quer a amiga, chegaram à conclusão que talvez fosse melhor não experimentarem novamente.
Já licenciada, em Organização Empresarial, a princesa regressou a casa, onde reencontrou os seus amigos. Ismael estava já casado, com uma mulher muito bonita, e tinha uma filha com um ano. A princesa sentiu um certo arrependimento de ter terminado o namoro com ele, e ainda esteve tentada a reconquistá-lo, mas, depois de lutar com a ideia por uns meses, achou melhor ficar quieta.
Dedicou-se ao trabalho. Criou uma empresa de consultoria na área em que se havia especializado. Inicialmente, utilizou os contactos dos seus pais para arranjar grandes clientes, mas depressa se fartou deles. Eles não queriam realmente controlar o caos e obter produtividade; o que lhes interessava era "parecer organizado", e não "ser organizado", até porque isso daria demasiado trabalho. A princesa acabou por vender a sua carteira de grandes clientes a uma empresa concorrente, e passou a dedicar-se apenas a um conjunto de pequenas empresas, escolhidas a dedo.
Esse foi um período rico em novos conhecimentos para a princesa, que foi tendo vários casos amorosos relativamente curtos, enquanto procurava a pessoa com quem gostaria de fazer uma vida em comum. Alguns correram muito mal, e deram à princesa lições valiosas, não só sobre as pessoas em geral, mas também sobre si em particular - sobre o que tolerava, sobre o seu feitio, sobre aquilo que procurava, e, acima de tudo, sobre as situações pelas quais não queria voltar a passar.
Outros casos houve que terminaram de forma natural, e com a compreensão de ambas as partes; alguns dos melhores amigos da princesa saíram desses relacionamentos. Outros afastaram-se e desapareceram. Outros, ainda, ficaram a pairar na sua vida, suspensos, à espreita de uma nova oportunidade.
Ao completar trinta anos, a princesa tinha uma empresa sólida, que começara a crescer lentamente graças a contactos com o exterior. Ela continuava a escolher meticulosmente os seus clientes nacionais, e muitos destes começavam a ganhar reconhecimento internacional; por arrasto, também a princesa e a sua empresa ganhavam uma maior exposição no estrangeiro.
Na sua vida pessoal, pouco havia mudado. A princesa continuava à procura do homem da sua vida, seguindo o único processo que conhecia - experimentando. No entanto, começava a ficar um pouco enfadada. Já há muito tempo que não tinha más experiências, pois havia aprendido a identificar os sinais de alarme e a agir de imediato, de forma a cortar o mal pela raíz; mas começava-a a fartar um pouco, esta rotina de procurar alguém interessante, demonstrar interesse, sondar a reacção dele, envolvê-lo e envolver-se... tudo aquilo lhe começava a parecer cansativo.
E começava a ficar também um pouco desanimada. Começou a preocupar-se mais e mais, pois achava que já estaria na altura de ter encontrado o homem que procurava. Nos últimos anos tinha-se tornado mais tensa, mais crispada, revoltada, até. Por vezes, não conseguia perceber muito bem porquê, ou com o quê, mas, eventualmente, lá saía mais uma diatribe acerca dos homens, que eram todos iguais e queriam todos a mesma coisa, e que ainda por cima não tinha jeito para essa coisa que queriam. Depois, era quase certo que haveria um pequeno período de melancolia, que às vezes se transformava numa ligeira depressão.
Era, também, sintomático desses períodos o envolver-se numa qualquer actividade para preencher o pouco tempo livre de que dispunha. Na maioria das vezes, acabava por abandonar essas actividades, se bem que algumas conseguiam prender o seu interesse o suficiente para as levar até o fim. Destas, a que se podia gabar de uma maior longevidade tinha sido aprender japonês.
Passou, então, a procurar mais a companhia das suas amigas, as que estavam na mesma situação que ela, e passaram a sair juntas, organizando as suas "Girls' Night Out", onde o objectivo era divertirem-se sem terem de se preocupar com - ou aturar os - homens. A princesa tinha um amigo que era dono de um clube gay, e iam lá muitas vezes, porque gostavam do ambiente. Só era permitida a entrada de mulheres se fossem como acompanhantes de habitués, e era garantido que, naquele clube, uma mulher estaria a salvo da "Caçada de Sábado à Noite" (ou de qualquer outra noite).
Durante uns meses, a princesa saiu exclusivamente com este grupo de amigas, evitando ao máximo o contacto com homens, mesmo com os seus amigos. Aparentemente, a princesa procurava conformar-se com o facto de o homem que procurava não existir, e, por algum motivo só dela conhecido, pensava que o conseguiria fazer com mais sucesso se reduzisse ao mínimo o contacto com homens.
Até que um dia, esse quasi-isolamento terminou, tão abruptamente como havia começado. Aparentemente, nada havia mudado na atitude da princesa, sendo que a única diferença perceptível foi uma alteração na forma como os seus casos amorosos começaram a acontecer - mais espaçados e duradouros. Um dos seus amigos disse-lhe um dia "Pareces mais leve... como se tivesse saído um peso dos ombros", ao que ela respondeu "Sim. Deixei de me consumir com preocupações. Deixei de procurar constantemente formas de escape para me anestesiar, para atenuar o mundo à minha volta. Deixei de passar a vida a pensar no que gostaria de ser e ter, para poder dar atenção ao que sou e tenho. Deixei de viver obcecada com o ter que viver muito feliz para sempre, para conseguir apreciar a felicidade que tenho no dia a dia. Deixei de exigir que os homens com quem me envolvo tenham de adivinhar o que gosto, o que preciso, o que quero, e decidi mostrar-lhes".
E assim a nossa princesa viveu a tentar ser feliz, um dia de cada vez. E será que conseguiu encontrar o seu príncipe encantado? Não sei, amiguinhos, não sei. Mas conta-se que, quando lhe perguntaram onde estaria o seu príncipe, ela respondeu, com um sorriso misto de maroto e matreiro, "Não sei. Mas tenho andado a olhar com mais atenção para os sapos e para os lobos maus".

1 Comments:
Primeiro, um sorriso, que foi o que aconteceu com o final da história. Segundo, dá que pensar :)
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