Primeiros! - Parte II
Eram 20:00, quando o telefone tocou. Era Elisa. A casa de seus pais havia sido assaltada e vandalizada. A Polícia já tomara nota da ocorrência. Havia uma descrição, algo grosseira, feita por um dos vizinhos, que tinha visto o intruso a saltar da janela para o quintal - levava uma meia na cabeça, um fato de treino cinzento, e coxeava ligeiramente.
Elisa ia passar a noite em casa dos pais. Segundo a Polícia, o perigo já havia passado, mas o casal, já de idade avançada, estava em estado de choque. Naturalmente, o melhor que Afonso poderia fazer era ficar afastado, dada a relação turbulenta que mantinha com seus sogros.
--- " ---
- Bom dia.
Nada. Não se ouvia nem um ruído na sala. Afonso havia, inclusivé, desligado os computadores dos seus colegas, que muitos deixavam o computador ligado durante a noite. Silêncio absoluto! Àquela hora, nem o ar condicionado estava a funcionar.
Afonso sentou-se. Agora era só esperar. Eram 5:00. Não faltaria muito para Zeferino entrar pela porta e sofrer a imensa humilhação de ter sido superado, de já não ser o Nº 1. Hoje, Afonso seria o melhor. Hoje seria Zeferino a dizer-lhe "bom dia".
Particularmente bem-humorado, Afonso teve oportunidade de reencontrar um amor esquecido - colocou um CD de música clássica, e apreciou a Sinfonia Italiana, de Mendelssohn, deixando-se embalar pela alegria da peça, que já há muito tempo não tinha o prazer de desfrutar. Até isso Zeferino lhe havia roubado.
O ignorante tinha o hábito irritante de ouvir bandas sonoras de filmes, e colocava sempre a música em altos berros! Aqueles idiotas que se chamavam compositores, e que desvirtuavam orquestras com as suas pautas abjectas! Violinos guinchantes! Metais pomposos! Violoncelos fanfarrões! Ouvir aquilo, dia após dia, era um tormento, e tinha tornado impossível a Afonso desfrutar do seu passatempo preferido - ouvir uma boa obra clássica. Mas hoje... ah, hoje, tendo sido ele o primeiro a chegar, poderia mostrar ao idiota do Zeferino o que uma orquestra era capaz de fazer
--- " ---
9:45.
Há muito que Afonso já tinha desligado a música. À medida que o tempo passava, o seu nervosismo aumentava. Onde estava Zeferino?! Onde estava esse grande filho da...?! Ele não podia ficar doente! Hoje não!
À sua volta, os seus colegas comentavam mais uma falha de energia que havia desligado os seus computadores, e faziam piadas sobre o funcionamento da UPS, mas Afonso nem os ouvia. Os seus olhos permaneciam fixados na porta, onde o seu cérebro interpunha imagens ininterruptas de Zeferino a abri-la.
- Bom dia.... Afonso?! Bom dia.
- Hã...? Oh, bom dia, Vitória.
Afonso nem havia dado pela chegada da sua colega. Geralmente costumava reparar, uma vez que Vitória era um belo exemplar do sexo oposto, uma quarentona muito bem conservada, e que ele observava muito discretamente, quase sempre de fugida, pelo canto do olho, sempre que podia. Mas hoje, tinha assuntos mais importantes para tratar! Porque é que Zeferino não chegava? Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa? Onde estava Zeferino?
- Ele hoje não vem.
Afonso fitou Vitória, perplexo. Como é que ela adivinhou o seu pensam...? Espera, ele deve ter falado em voz alta novamente. Vermelho que nem um tomate, estava a pensar no que dizer para justificar a sua preocupação com um colega com quem raramente falava, quando o significado da frase de Vitória lhe caiu em cima, como uma avalanche.
- N... não vem? Como, não vem?
- Está de férias, durante três dias. Só vem cá no último dia, antes de se ir embora.
Não podia ser! Afonso tinha previsto esta possibilidade, e tinha feito uma consulta a um conhecido nos Recusros Humanos, que lhe garantiu que Zeferino já tinha utilizado todos os seus dias de férias. Não, isto não podia ser verdade!
- Mas pensei que ele já tinha tirado todas as férias. - Afonso estava calmo, como que atordoado. A sua própria voz soava-lhe distante, enevoada.
- Sim, mas o Director teve autorização para lhe dar estes dias. Como ele sempre foi um empregado dedicado, e assim...
Afonso ergueu-se, e dirigiu-se ao WC. O seu cérebro exibia um enorme vazio, pontuado apenas por abafadas vociferações mentais contra os malditos construtores que não faziam escadas de incêndio, de cada vez que se apoiava no pé magoado. E assim, coxeando ligeiramente, lá foi ele direito ao seu refúgio de sempre, neste seu dia de glória, afinal tão igual a todos os outros.
Elisa ia passar a noite em casa dos pais. Segundo a Polícia, o perigo já havia passado, mas o casal, já de idade avançada, estava em estado de choque. Naturalmente, o melhor que Afonso poderia fazer era ficar afastado, dada a relação turbulenta que mantinha com seus sogros.
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- Bom dia.
Nada. Não se ouvia nem um ruído na sala. Afonso havia, inclusivé, desligado os computadores dos seus colegas, que muitos deixavam o computador ligado durante a noite. Silêncio absoluto! Àquela hora, nem o ar condicionado estava a funcionar.
Afonso sentou-se. Agora era só esperar. Eram 5:00. Não faltaria muito para Zeferino entrar pela porta e sofrer a imensa humilhação de ter sido superado, de já não ser o Nº 1. Hoje, Afonso seria o melhor. Hoje seria Zeferino a dizer-lhe "bom dia".
Particularmente bem-humorado, Afonso teve oportunidade de reencontrar um amor esquecido - colocou um CD de música clássica, e apreciou a Sinfonia Italiana, de Mendelssohn, deixando-se embalar pela alegria da peça, que já há muito tempo não tinha o prazer de desfrutar. Até isso Zeferino lhe havia roubado.
O ignorante tinha o hábito irritante de ouvir bandas sonoras de filmes, e colocava sempre a música em altos berros! Aqueles idiotas que se chamavam compositores, e que desvirtuavam orquestras com as suas pautas abjectas! Violinos guinchantes! Metais pomposos! Violoncelos fanfarrões! Ouvir aquilo, dia após dia, era um tormento, e tinha tornado impossível a Afonso desfrutar do seu passatempo preferido - ouvir uma boa obra clássica. Mas hoje... ah, hoje, tendo sido ele o primeiro a chegar, poderia mostrar ao idiota do Zeferino o que uma orquestra era capaz de fazer
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9:45.
Há muito que Afonso já tinha desligado a música. À medida que o tempo passava, o seu nervosismo aumentava. Onde estava Zeferino?! Onde estava esse grande filho da...?! Ele não podia ficar doente! Hoje não!
À sua volta, os seus colegas comentavam mais uma falha de energia que havia desligado os seus computadores, e faziam piadas sobre o funcionamento da UPS, mas Afonso nem os ouvia. Os seus olhos permaneciam fixados na porta, onde o seu cérebro interpunha imagens ininterruptas de Zeferino a abri-la.
- Bom dia.... Afonso?! Bom dia.
- Hã...? Oh, bom dia, Vitória.
Afonso nem havia dado pela chegada da sua colega. Geralmente costumava reparar, uma vez que Vitória era um belo exemplar do sexo oposto, uma quarentona muito bem conservada, e que ele observava muito discretamente, quase sempre de fugida, pelo canto do olho, sempre que podia. Mas hoje, tinha assuntos mais importantes para tratar! Porque é que Zeferino não chegava? Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa? Onde estava Zeferino?
- Ele hoje não vem.
Afonso fitou Vitória, perplexo. Como é que ela adivinhou o seu pensam...? Espera, ele deve ter falado em voz alta novamente. Vermelho que nem um tomate, estava a pensar no que dizer para justificar a sua preocupação com um colega com quem raramente falava, quando o significado da frase de Vitória lhe caiu em cima, como uma avalanche.
- N... não vem? Como, não vem?
- Está de férias, durante três dias. Só vem cá no último dia, antes de se ir embora.
Não podia ser! Afonso tinha previsto esta possibilidade, e tinha feito uma consulta a um conhecido nos Recusros Humanos, que lhe garantiu que Zeferino já tinha utilizado todos os seus dias de férias. Não, isto não podia ser verdade!
- Mas pensei que ele já tinha tirado todas as férias. - Afonso estava calmo, como que atordoado. A sua própria voz soava-lhe distante, enevoada.
- Sim, mas o Director teve autorização para lhe dar estes dias. Como ele sempre foi um empregado dedicado, e assim...
Afonso ergueu-se, e dirigiu-se ao WC. O seu cérebro exibia um enorme vazio, pontuado apenas por abafadas vociferações mentais contra os malditos construtores que não faziam escadas de incêndio, de cada vez que se apoiava no pé magoado. E assim, coxeando ligeiramente, lá foi ele direito ao seu refúgio de sempre, neste seu dia de glória, afinal tão igual a todos os outros.

1 Comments:
já li esta estória várias vezes e fico sempre com um sorriso ao largo !
és um doce :)
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